Nunca jamais
Martha Medeiros
A gente sabe direitinho o que ainda gostaria de fazer na vida antes que as cortinas se fechem. Os sonhos são variados: uns não querem morrer antes de conhecer Paris, outros desejam um dia montar sua própria pousadinha, há aqueles que prometeram a si mesmos correr uma maratona até o final e as que se sentirão subindo ao pódium se conseguirem comprar uma Montblanc que não fosse de camelô. É a turma do "hei de conseguir", "vou lutar para", "chegarei lá".
Eu, que já fui mais longe do que esperava, tenho o costume inverso: listar as coisas que não farei nem sob decreto. Nunquinha. Meu top ten de não-desejos inclui, entre outros, tudo o que envolve altura: saltar de pára-quedas, bung jump, parapente. Nem amarrada, ainda que solta é que não iria mesmo. Nem sedada. Fora de cogitação.
Até aí, imagino que eu tenha companhia, não é um medo vergonhoso. O que me envergonhava era outra coisa que havia jurado jamais fazer em vida. Para uma gaúcha, um acinte: prometi a mim mesma que ninguém me veria montar num cavalo. Tudo porque aos oito anos eu subi num diabo que disparou feito um míssil e por pouco não me deu o mesmo destino do ator Christopher Reeve. Trauma insolúvel. Estava decidido: cavalgada não iria entrar na minha biografia nem a pau. Era no que acreditava até sábado passado.
Tenho fotos para provar. Testemunhas. Até um diploma de cavaleira ganhei. Estive em São Francisco de Paula, na charmosíssima Pousada do Engenho (os que sonham em ter uma pousada um dia, não inventem, inspirem-se nesta), e acabei sendo convencida a fazer um passeio ali perto, numa fazenda onde um simpático casal de alemães promove cavalgadas para amadores e profissionais. Um empolgante passeio de três horinhas.
Três horas???
Não me pergunte como, mas quando percebi, estava em cima do lombo do bicho, numa altura que para mim era semelhante a de um avião, uma ponte, uma montanha. Vou cair, Jesus Cristo. O equino deu um passo, e depois outro, e mais outro, e quando vi eu estava trotando lépida e faceira feito criança com brinquedo novo. Tão à vontade que por pouco não empinei o bicho, que nem faz o Beto Carrero. Eu, que jurava que nunca, jamais, nem morta, só passando por cima do meu cadáver, descobri que nasci para andar a cavalo.
Exageros à parte, uma coisa aprendi com essa brincadeira. Isso de dizer que nunca-jamais é uma negação à vida. Até que eu experimente, não posso ter certeza de nada, nem mesmo sobre esta criatura que me parece tão familiar, que sou eu mesma. Meu top ten de não-desejos virou top nine, e quem sabe eu consiga eliminar outros medos com o tempo.
Mas pára-quedas, nunca, jamais, nem nessa vida, nem na outra.
Domingo, 8 de abril de 2007.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.